Nos últimos anos, tanto nos países desenvolvidos como naqueles em desenvolvimento, o custo da atenção à saúde tem crescido progressivamente, seja pelo aumento do contingente populacional, seja pelo aumento da expectativa de vida ao nascer, seja ainda, pelo crescente desenvolvimento tecnológico que, portanto, provocam o encarecimento da pratica médica. O atendimento médico à população absorve o custo dessa constante incorporação tecnológica, repassando-o à população. Nos hospitais privados, os custos assistenciais atingem diretamente os pacientes, total ou parcialmente, conforme o processo seja financiado pelo próprio paciente ou pelos seguros-saúde.

Em nosso País, procurou-se solucionar o aumento crescente dos custos médicos e hospitalares de diversas formas, principalmente através da contenção, ou mesmo da redução, dos valores pagos por honorários e por serviços hospitalares, representados por diárias e taxas de utilização das estruturas e dos equipamentos hospitalares. Isto, porém, levou também à queda do acesso a serviços de qualidade, com prejuízos evidentes para a saúde da população, mas também levou à distorção do foco estratégico e da vocação original do setor hospitalar, cuja possibilidade de retorno financeiro foi desviada para a comercialização de medicamentos e materiais consumidos na realização dos procedimentos médicos.

As consequências desse conjunto de distorções são agravadas pelo modelo de remuneração convencionalmente adotado no Brasil, que favorece a quantidade e não a qualidade dos serviços dos prestadores. Resultados previsíveis: aumento progressivo da sinistralidade das Operadoras; necessidade de aumentar os preços dos planos e seguros em percentuais muito acima da inflação; redução da população segurada; aumento de glosas; aumento das despesas com auditorias; impactos na prática de comissionamento com fornecedores de dispositivos  médicos implantáveis – DMI.

Meios mais eficazes podem ser considerados e aplicados, como a adoção de modelos alternativos, que objetivam a sustentabilidade do segmento, entre eles a realização de cirurgias de baixa e média complexidades em instalações hospitalares menos dispendiosas, mas de resultados mais abrangentes.

O conceito de cirurgia ambulatorial vem sendo alterado nos últimos anos, em resposta ao desenvolvimento de novas técnicas operatórias e ao progresso do suporte tecnológico. Este progresso é representado tanto por novos equipamentos para cirurgias endoscópicas e minimamente invasivas (incluindo equipamentos para cirurgias vídeo assistidas e robóticas), novos materiais e próteses, além de novos equipamentos que usam diferentes tipos de energia em secções e dissecções de tecidos. Foi fundamental também o desenvolvimento da anestesiologia, que ganhou novos equipamentos para monitorização per-operatória, drogas anestésicas mais seguras, precisas e com menos efeitos colaterais, além de novas técnicas para analgesia pós-operatória.

Também colaborou com a ampliação do conceito de cirurgia ambulatorial, a profissionalização da gestão hospitalar, que vem aproveitando a incorporação do conhecimento em novas metodologias e processos para gestão operacional, administrativa e financeira da prática médica.

Nos Estados Unidos, a cirurgia ambulatorial vem crescendo desde o início dos anos 80. As duas razões principais para o contínuo aumento foram os avanços na tecnologia médica e o referenciamento estratégico empreendido pelo MEDICARE e pelas principais empresas de Seguros de Saúde, como contrapartida da possibilidade de negociação de modelos de remuneração financeiramente sustentáveis com os Centros Cirúrgicos Ambulatoriais (“Ambulatory Surgery Centers – ASCs”).

Na verdade, a preocupação com o aumento dos custos, que levou a mudanças no programa MEDICARE, incentivou o desenvolvimento da cirurgia ambulatorial. Dessa forma, no início dos anos 80, o programa MEDICARE foi ampliado para cobrir, preferencialmente, os atendimentos realizados em Centros Cirúrgicos Ambulatoriais. Também foi criado um sistema de pagamento prospectivo baseado no modelo de “Diagnostic Related Groups (DRG)”, para qualificar e precificar o atendimento hospitalar. Esta estratégia embasou o referenciamento preferencial dos ASCs para a realização de cirurgias e procedimentos de baixa e média complexidade e criou incentivos para que médicos e hospitais aceitassem a mudança das cirurgias menos complexas, para ambientes ambulatoriais. Muitas seguradoras privadas seguiram a liderança do programa MEDICARE e adotaram políticas semelhantes.

À medida que essas mudanças ocorreram, muitos tipos de cirurgias feitas em hospitais, passaram, cada vez mais, a ser realizadas em Centros Cirúrgicos Ambulatoriais. Em seguimento e como consequência destas alterações, o número de Centros Cirúrgicos Ambulatoriais (“ASCs”) aumentou de 239 em 1983 para mais de 3.300 quase duas décadas depois e, atualmente, chega a cerca de 6.000 unidades. O número de procedimentos que estão sendo realizados em “ASCs” também aumentou dramaticamente – de 380.000 procedimentos em 1983 para 31,5 milhões em 1996 e 53,3 milhões de procedimentos cirúrgicos e não cirúrgicos em 2006.

Artigo escrito por Roberto Tolomei –  Presidente da Dealmed Condo-Hospital