O jornal Valor Econômico publicou artigo de autoria do diretor técnico da Planisa, Marcelo Tadeu Carnielo, escrito em parceria com mais três especialistas (dois doutores em Infectologia e um sanitarista), onde os autores citam estudos, os quais sinalizam fortemente, e de maneira contundente que, se forem priorizados na vacinação dos maiores de 60 anos, o que demandaria 31,8 milhões de doses completas, se evitaria potencialmente uma carga de sofrimento humano incomensurável, além das imensas perdas econômicas e da memória nacional que se extingue com a morte dos cidadãos mais velhos e experientes.

Confira na íntegra:

Qual é a prioridade?

A vacina possui excepcional relação custo-benefício, e é muito barata

A pandemia da covid-19 no Brasil já ultrapassou os 300 mil óbitos e, pior, com perspectivas ainda incertas quanto ao seu controle, apesar dos avanços – em passos lentos – da vacinação.

Além deste desafio, as diferenças regionais de assistência e de acesso, o uso de medicamentos comprovadamente ineficazes, a falta de mão de obra especializada  (não se capacita um profissional em Terapia Intensiva “da noite para o dia”), a potencialização de eventos adversos frente à situações de colapso e improviso, com possíveis aumento de mortalidade e complicações, a saturação e o afastamento médico das atuais equipes assistenciais, enfim, um conjunto de variáveis intensificam ainda mais a situação caótica do momento.

Assim, em um cenário de escassez de vacina, acompanhada de colapso dos recursos hospitalares, há que se definir imediatamente prioridades para diminuir mortes e garantir acesso a uma assistência compatível com o estado da arte da ciência e da tecnologia contemporâneas.

Com o objetivo de buscar alternativa custo-efetiva, realizou-se um estudo sobre a base DRG Brasil, que abrange 334 hospitais com 53.822 leitos e que assistem a cerca de 15,6 milhões de brasileiros, cobertos pela saúde suplementar e pelo Sistema Único de Saúde (SUS), distribuídos em todas as regiões brasileiras.

Analisaram-se 60.384 internações de todos os pacientes internados durante a pandemia por covid-19, no período de março a março de 2020/2021. Os dados foram coletados pela leitura de prontuários por enfermeiros treinados e dedicados exclusivamente a essa função.

Quando se analisam as mortes, pode-se constatar, o que não é fato novo, que os maiores de 60 anos de idade são uma população especialmente vulnerável a esta doença: 82,9% dos óbitos hospitalares verificados nas internações analisadas ocorreram nesta faixa etária, que representa apenas 15,7% do total de 212 milhões de brasileiros estimados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Constata-se também que a mortalidade aumenta com a idade: 38,7% nos maiores que 80; 14,73% naqueles entre 60 e 69 anos; 5,52% entre 18 e 59 anos e 0,96% entre 0 e 17 anos.

Os achados do presente estudo sinalizam fortemente, e de maneira contundente, qual prioridade de vacinação deva ser adotada para impactar definitivamente na mortalidade pelo vírus no Brasil: 33,28 milhões de doses de vacina anti-covid-19 poderiam evitar 82,9% das mortes dos brasileiros.

Os maiores de 60 anos são 51,1% dos internados e esta proporção se mantém nos últimos 90 dias. Eles consumiram 61,8% de todos os leitos e 72,9% dos recursos de ventilação mecânica usados no tratamento da covid-19 nos hospitais estudados. A vacinação desta faixa etária determinaria uma liberação massiva de recursos essenciais para assistir os casos graves, que ainda persistirão por um período, em menor proporção, mas, ainda assim, inaceitáveis.

A Planisa realizou estudo junto a 38 hospitais com unidades para atendimento de pacientes com covid-19, no período de abril de 2020 a fevereiro de 2021. A metodologia de custeio foi padronizada, definindo-se que todos os custos de produção fossem alocados ao custo da diária, incluindo, entre outros itens, materiais hospitalares, medicamentos e honorários médicos e excluindo custos com exames.

Neste estudo, obteve-se que o custo médio de diária em unidade de internação não crítica com paciente covid-19 foi de R$ 1.289; enquanto nas unidades de internação crítica adulto (UTI) ele alcançou o patamar de R$ 2.306. Comparados aos pacientes clínicos não acometidos pela doença, os pacientes covid consumiram, em média 2,5 vezes mais recursos. Esse achado é determinado pelo aumento proporcional da complexidade e criticidade clínica nessa população, mensurado pela metodologia DRG Brasil. Dos pacientes que se internaram para tratamento do covid-19, 33,4% usaram UTI e 17,4% usaram ventilação mecânica, com uma permanência hospitalar média, com e sem uso de UTI, de 9,8 dias. Os pacientes que usaram terapia intensiva ficaram internados, em média, 16,8 dias, sendo 7,2 destes dias nas UTI.

Se o espectro clínico da doença e os custos no Brasil forem semelhantes a este estudo, pode-se estimar o agregado do custo direto hospitalar vinculado à covid até o momento.

Considerando que os 300 mil mortos registrados até o presente equivaleriam a 16,2% dos internados (mortalidade do estudo), isso permitiria estimar um total de 1.851.185 internações por covid no país (SUS e Saúde suplementar). Estas internações consumiram 18.148.148 dias de hospital (permanência média de 9,8 dias). 618.519 internaram em UTI (33,4% dos internados) e consumiram 4.453.333 dias de terapia intensiva (permanência média de 7,2 dias).

Aplicando os custos apurados pela Planisa, R$ 10,269 bilhões foram gastos em CTI (Centro de Terapia Intensivo) e R$ 17,987 bilhões em unidade de internação não crítica, totalizando R$ 28,256 bilhões, o que corresponde a aproximadamente 10% do orçamento da saúde do país. Aqui não estão incluídos os custos de reabilitação, nem do cuidado com as sequelas da doença.

Passado um ano do início da pandemia, pode-se afirmar, mais uma vez, que a melhor estratégia em saúde é a prevenção. A vacina possui uma excepcional relação custo-benefício, é muito barata. Se forem priorizados na vacinação os maiores de 60 anos, o que demandaria 31,8 milhões de doses completas, se evitaria potencialmente um enorme contingente de mortes (82,9%) e uma carga de sofrimento humano incomensurável, além das imensas perdas econômicas e da memória nacional que se extingue com a morte dos cidadãos mais velhos e experientes.

Isso tem sido demonstrado entre os idosos institucionalizados, com expressiva redução da mortalidade e das internações entre os residentes vacinados. Falta pouco tempo para atingirmos esta cobertura se eles forem, de fato, a prioridade. Vale a pena redobrar o esforço de distanciamento social e uso de máscaras.

O custo econômico é mensurável e pode ser recuperado com o esforço de todos, mas o sofrimento das vidas perdidas, não.

Marcelo Tadeu Carnielo é administrador, diretor técnico da Planisa e especialista em gestão de custos hospitalares.

Renato Couto é doutor em infectologia, presidente do Grupo IAG Saúde, co-fundador do DRG Brasil e professor da Faculdade de Medicina, Ciências Médicas de Minas Gerais.

Francisco Carlos Cardoso de Campos é sanitarista, mestre em Administração pelo Cepead/Face/UFMG, pesquisador do Núcleo de Estudos em Saúde Coletiva (Nescon), da Faculdade de Medicina da UFMG e do Instituto Feluma de Inovação da Gestão em Saúde.

Tania Grillo é doutora em infectologia, presidente do Grupo IAG Saúde, co-fundadora do DRG Brasil e professora da Faculdade de Medicina, Ciências Médicas de Minas Gerais.